Carreira

Você não precisa ser o melhor para ser extraordinário – Skill stack e o acúmulo de habilidades

É melhor ter três ferramentas adequadas do que uma única e perfeita. 

A faca é ótima para cortar coisas, o garfo é ótimo para espetá-las e a colher é imprescindível para qualquer coisa não tão sólida assim. Crescemos num mundo onde relacionamos sucesso a hiper especialização, mas será que, na prática, é melhor você fazer algo excelentemente bem ou várias muito bem?

Considere o que é preciso para se tornar um jogador de futebol da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. A maioria dos jogadores começa cedo, nos campos de bairro e passando nas “peneiras” das escolas e times de base. Anos e anos de muito treino, prática, treinos de chute, domínio de bola, coletivo, treinos físicos e qualquer coisa que possa te tornar melhor em campo.

Como você pode imaginar, a taxa de sucesso para se tornar jogador de futebol é notavelmente baixa. Quatro entre cinco jogadores de futebol ganham menos de mil reais por mês. Mais especificamente, de acordo com os dados do levantamento da CBF, do total de jogadores profissionais brasileiros, 23.238 (82,40%) recebem salários de até R$ 1 mil, 3.859 (13,68%) ganham entre R$ 1 mil e R$ 5 mil, 381 (1,35%) entre R$ 5 mil e R$ 10 mil e 499 (1,77%) entre R$ 10 mil e R$ 50 mil. Estimasse ainda que apenas 1% das pessoas que querem ser jogadores de futebol conseguirão alcançar essa meta profissional.

Então, vamos ser realistas. Você provavelmente não será um jogador citado pelo Galvão Bueno. Você não se tornará presidente do Brasil (se bem que os últimos…). Você não será o maior escritor do mundo, nem o melhor jogador de xadrez, nem o orador público mais talentoso. Você nunca será o melhor do mundo em nenhuma habilidade. Sempre haverá alguém trabalhando mais. Sempre haverá alguém com maiores dons genéticos, ou mais sorte, ou mais dinheiro.

A maioria das pessoas (na zona azul) tem muito pouca habilidade específica. Um pouco de trabalho pode levá-lo rapidamente aos 10% principais (zona verde). Mas quando você se junta à elite, fica cada vez mais difícil subir, porque você enfrenta concorrentes profundamente comprometidos com essa habilidade.

Faça o exercício mental de participar de uma corrida de bicicleta, por exemplo: para você sair de zero a 80% de performance você precisa investir certo tempo e basicamente nada de dinheiro. Com a bicicleta velha do seu tio avô você pode passar a fazer certa rodagem. Conforme você queira melhorar a sua performance, cada investimento em melhoria aumenta cada vez menos a porcentagem de melhora. Um iniciante tem melhora de 80% em sua performance investindo R$ 250,00 numa bicicleta velha. Um atleta de elite investe R$ 14.800,00 para colocar o melhor conjunto de correias em sua bicicleta, para ganhar 0,5% de performance.


Por isso, tentar ser o melhor de uma área provavelmente não é o caminho mais inteligente para o sucesso. Em vez disso, você deve se esforçar para dominar uma combinação de habilidades. A solução é o acúmulo de habilidades (do inglês: skill stack), um conceito popularizado por Scott Adams. E eu vou te contar o porquê agora mesmo:

O básico

Enquanto eu crescia, a maior referência em culinária para mim era a Ana Maria Braga. Isso acontecia, é claro, porque ela era carismática, entendia do assunto e certamente foi muito boa em networking e comunicação ao longo da vida (além dos memes maravilhosos que protagonizou). Mas também porque ela era basicamente a única opção viável de consumo de conteúdo sobre gastronomia – seria extremamente difícil competir de igual para igual com ela.

Mas acontece que hoje eu conheço pessoas extremamente bem sucedidas que são grandes influenciadores na internet por dominarem assuntos sobre culinária nas quais são 10 vezes melhores do que Ana Maria Braga e  Louro José poderiam sonhar. Ela pode ter muito conhecimento e alcance na Rede Globo, mas ela jamais produzirá conteúdos sobre gastronomia vegana para mulheres que sofrem de ovário policístico tão bem quanto a influenciadora Gabi Mahamud, por exemplo.

Idealmente, as habilidades seriam únicas e também complementares. Imagine alguém que seja razoavelmente bom em falar em público, angariação de fundos, redação de discursos, carisma, networking, mídia social e persuasão. Quem é essa pessoa? Um político de sucesso. Os políticos mais bem-sucedidos não parecem surpreendentes em habilidades individuais, mas marque as caixas certas que lhes permitam prosperar.

Este princípio se aplica a todos os campos. Um escritor pode ser um excelente poeta. Mas provavelmente não terá tanto sucesso quanto a pessoa que é uma poeta relativamente boa, uma autopromotora forte, consegue criar vídeos envolventes e possui as habilidades interpessoais para se conectar com pessoas importantes do setor editorial.

É mais fácil e mais eficaz estar entre os 10% melhores em várias habilidades diferentes – sua “pilha” – do que estar entre os 1% melhores em qualquer habilidade. É assim que o empilhamento de habilidades funciona. Dê uma olhada neste gráfico:


Neste gráfico, cada pico representa uma habilidade. Chegar ao top 10% (zona verde) de duas habilidades requer muito menos trabalho do que se tornar o melhor de uma única. E essas duas curvas não se sobrepõem muito, o que significa que a maioria das pessoas que são boas em uma habilidade não é boa na outra.

Vamos mostrar alguns números sobre isso. Se sua cidade possui um milhão de pessoas, por exemplo, e você pertence aos 10% das seis habilidades mais importantes para ser muito bem sucedido em determinada área, isso significa 1.000.000 x 10% x 10% x 10% x 10% x 10% x 10% = 1. Você é o número um na sua cidade com essas seis habilidades combinadas. Aumentar esse número em até 10 habilidades? Boom, você é o melhor do mundo nessa combinação de 10 habilidades.

Você quer mais exemplos?

O guru da internet Gary Vaynerchuk é um ótimo exemplo de alguém que consegue empilhar habilidades. Ele tem 8 milhões de seguidores no Instagram, mais 2 milhões de seguidores no Twitter, quase 3 milhões de inscritos no YouTube e um blog ativo que as pessoas leem como se fossem escrituras sagradas. Nesses canais, você encontrará conteúdo sólido, mas nada exatamente que você já não saiba ou imagine. A mágica que distingue Gary Vee (como ele se auto apelidou) é a sua pilha de habilidades: o fato de ele não ser apenas um bom escritor, mas também manjar muito de marketing digital, falar bem público e saber todos os caminhos para construir uma marca pessoal, isso é o que o torna um dos maiores gurus da atualidade.

O princípio também se aplica a Steve Jobs. No centro da pilha de habilidades de Jobs está a paixão pelo design, seja de fontes, embalagens ou arquitetura. Ele era maluco pela aparência de seus produtos. Nunca foi o melhor do mundo em design, mas com o tempo desenvolveu uma profunda compreensão dos princípios importantes. Mais tarde, ele combinou suas habilidades de design com uma visão profunda sobre o que as pessoas querem, conhecimento técnico, mente estratégica, capacidade de vendas, capacidade de extrair tudo de seus funcionários e habilidades empreendedoras. Juntas, essas habilidades o ajudaram a construir não somente uma simples empresa focada em tecnologia avançada e design bonito, mas a Apple.

Qual é a sua pilha de habilidades especiais?

Ao descobrir sua própria pilha de habilidades, considere a combinação delas e como elas são um diferencial quando aplicadas juntas. Você quer que eles sejam relacionados de alguma forma, mas não muito semelhantes. Por exemplo, se você está no top 1% em jornalismo, também estar no top 1% em habilidades de escrita não será um grande diferencial. A maioria dos principais jornalistas são bons escritores. O que é diferente no empilhamento é ter habilidades que não só funcionam juntas, mas também são variadas o suficiente para fazer você se destacar.

Aqui, as duas habilidades andam de mãos dadas. A maioria das pessoas que domina um também domina o outro. Portanto, é mais difícil se destacar do que se você tivesse duas habilidades não relacionadas.

As melhores habilidades para escolher são aquelas que não tendem a andar juntas, mas que se complementam bem. Por exemplo, os engenheiros não são conhecidos por serem grandes oradores, de modo que aqueles que possuem uma enorme vantagem profissional (Isso é chamado de “covariância” nas estatísticas. A matemática sobre o número de habilidades acima pressupõe que as habilidades sejam completamente independentes).

Eu, por exemplo, tenho quatro grandes formações na minha vida: marketing, que me ensinou a lidar com negócios e a realmente acelerar o crescimento de uma empresa, meu ensino técnico em tecnologia da informação e minha pós graduação em negócios digitais que me ensinaram a construir e digitalizar negócios na internet e, por último, meus mais de 10 anos praticando  e ensinando parkour que além de obrigarem a lidar com alto risco e não se intimidar com grandes obstáculos, também me ensinaram a estruturar conteúdos e metodologias de ensino e transmitir conhecimento. Essas habilidades combinadas, naturalmente, me levaram a empreender e liderar equipes no mundo digital com certo sucesso. Hoje eu procuro desenvolver outras habilidades que julgo me tornarem ainda mais diferenciado no mundo dos negócios: a capacidade de me comunicar bem (escrevendo e falando), lidar com dados e liderar pessoas.

Por mais que esse conjunto de habilidades não seja realmente incomum, eles me colocam em posições de bom reconhecimento e remuneração, com cortes de caminho que talvez eu levasse anos para fazer.

Está claro?

Espero que a leitura até aqui já tenha te convencido de que, probabilisticamente, será muito difícil você ser o número um em qualquer especialização. Então pare de tentar ser o melhor em uma coisa só! 

Caso contrário, você pode estar se preparando para uma decepção séria. Em vez disso, pergunte-se: em que nicho eu quero me destacar? Que combinação de habilidades eu preciso para ser único? Eu sou apaixonado pela maioria – ou pelo menos algumas – dessas habilidades?

De novo, não se trata de ser o melhor em nada – você só precisa ser relativamente bom em uma variedade de habilidades úteis que, quando combinadas, tornam você verdadeiramente único. Quando você chegar lá, ser você mesmo será o seu maior diferencial.

Obrigado ao Tomas Pueyo por escrever o texto que serviu de base para este aqui.

Comentários (1)
  1. Danilo disse:

    excelente texto!!!! ideias muito claras e coerentes!!!! valeu muito a reflexão!!!

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