Carreira

Uma carta, de coração, aos desempregados brasileiros

A última vez que tive minha carteira assinada foi em 2014, quando passei a trabalhar via MEI e, depois, abri formalmente minha empresa. Nunca tive a sensação de estar desempregada, mas vi isso acontecendo com pessoas próximas, entre familiares e amigos, e sempre tentava encorajá-las com o discurso de “calma que tudo vai dar certo”.

Contudo, em março desse ano, passei por uma situação profissional no mínimo desconfortável – e só esse discurso não ia me bastar. Um erro estratégico quase colocou minha empresa abaixo: um dos clientes da casa respondia por cerca de 80% do nosso faturamento e não conseguiu renovar o contrato por conta da crise econômica.

A primeira coisa que pensei foi: tudo bem, outros clientes vão chegar. Mas os dias passavam, nenhum novo cliente aparecia e o contracheque do próximo mês se desenhava de forma assustadora e trágica: o meu salário seria de 500 reais.

Para quem se acostumou a viver dentro de uma outra realidade, 500 reais e zero reais são, praticamente, a mesma coisa. Passar fome eu não ia, porque tinha muita gente por aí que me ajudaria a comer. Mas ainda tinha o cartão de crédito a ser pago, o aluguel, as despesas do casamento – uma festa que eu comecei a pagar em dezembro do ano passado, e que ainda me custaria milhares de reais nos meses à frente (quem já casou sabe bem do que eu tô falando…).

“E agora, José?”, diria o poeta Carlos Drummond de Andrade.

“F*$#@u”, responderia a desesperada Laís.

Balboa motivacional

No auge do desespero pelas dívidas que chegavam, e pelo dinheiro que não existia mais, houve um domingo do qual eu nunca mais vou me esquecer.

Destruída por dentro, saí para almoçar e vi as pessoas levando suas vidas com naturalidade. Aquilo me deixou ainda mais nervosa: como é que todas essas pessoas conseguem sorrir e viver com a tragédia que se abate sobre mim?! A verdade é que nenhuma delas sabia, de fato, o que se passava. Afinal, além de não ser um tópico muito legal de conversa (“então, as coisas vão bem, tirando que não tenho um real para pagar minhas contas. E você, como está?”), dá aquela vergonhazinha por ter falhado.

“então, as coisas vão bem, tirando que não tenho um real para pagar minhas contas. E você, como está?”

Chega um momento em que você sabe que tem pessoas com quem contar, mas que a impotência por depender delas te dá um gosto ainda mais amargo na boca.

No fim daquele domingo, de volta à casa, sentei no banco da cozinha e comecei a chorar. Foi uma cena de dar pena: sem dinheiro, sem possibilidades de fazer algum dinheiro, com as contas chegando, cheguei a pensar que a única saída seria desistir do casamento e, até, voltar para a casa dos meus pais – que, diga-se, é em outra cidade.

Naquele momento, eu não queria ouvir nada do calibre de “calma, as coisas vão dar certo”, porque eu tinha certeza absoluta que elas não iam dar certo. O meu noivo, companheirão para todas as horas, soltou a frase certa, na hora exata:

 – Você lembra daquilo que o Rocky Balboa diz, né? É tudo sobre apanhar e continuar seguindo em frente.

Pronto.

Isso foi o suficiente para me fazer refletir além do meu estado deplorável de desespero. No mesmo dia, terminei o domingo assistindo – de novo – o filme em que o personagem de Sylvester Stallone fala as palavras mais avassaladoras do mundo:

“O mundo é um lugar sujo e cruel que não quer saber o quanto você é forte. Ele vai te botar de joelhos – e você vai ficar de joelhos pra sempre se deixar que isso aconteça. Você, eu ou ninguém vai bater tão forte quanto a vida, mas não se trata de bater, se trata do quanto você aguenta apanhar e seguir em frente. Do quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que você consegue vencer”

Um domingo para sempre

Depois desse domingo, desse filme e do insight que ele me deu, eu disse a mim mesma: você tem mais cinco dias para se desesperar e achar que nada vai dar certo. Cinco dias. No sexto dia, você vai fazer alguma coisa, qualquer coisa, para tentar se reerguer.

Nos dias que se seguiram, fiz mais ou menos isso: tive medo. Pensei em todas as possibilidades que poderiam dar errado. Fiz minha listinha de planos B, C e D. Não queria ficar perto de pessoas felizes ou bem sucedidas. Mas, antes que chegasse o quinto dia de desespero, eu já tinha me cansado dessa rotina. Comecei a martelar na minha cabeça o que fazer, e como fazer, para dar a volta por cima.

O mercado está saturado, então fiz minha listinha de talentos: sou criativa, sou simpática, adoro ler, adoro estudar. Comecei a me vender por essas habilidades, e logo encontrei amigos que precisavam de freelas em suas lojas e pessoas que precisavam de ajuda com seus estudos universitários.

Fiz também a lista de talentos e diferenciais da minha própria empresa, e fui, praticamente, de porta em porta vendendo nossos serviços. Fiz contatos que não poderiam nos contratar naquele momento, mas que indicaram outros contatos, que indicaram outros. A empresa voltou aos trilhos – e aprendeu sua lição: hoje, não temos a maior parte do faturamento em um só cliente.

Depois disso, nunca trabalhei tanto na minha vida. Às vezes me dá aquela tristeza de pensar que já trabalhei bem menos e ganhei muito mais. Mas, por outro lado, consigo dar hoje um valor bem maior ao meu esforço do que antes. Hoje, sei que rico mesmo é quem tem tempo, e tento escolher as atividades que me darão mais prazer em gastar esse ativo.

Mas esse não é um texto sobre meu final feliz. Esse é um texto sobre o momento do desespero – mesmo porque, depois dessa experiência, vi que não existe final feliz. A qualquer momento, se eu não me mantiver alerta, essas coisas podem todas se repetir, e de maneiras até piores. O estado de vigilância é constante.

Então, onde quero chegar com tudo isso?

A mensagem que quero te passar é que, ao perder seu emprego, eu sei o que você sentiu – e não é uma sensação boa. O desespero bate na porta a cada dia em que o currículo não é aceito, e a sensação de gosto ruim na boca só aumenta.

Mas Rocky estava certo: o mundo é um lugar cruel, e vai te deixar de joelhos pelo tempo que você permitir que ele faça isso. Ele não liga para as suas dores, suas angústias, sua falta de perspectiva. Você vai sair pra comer no domingo e ver todo mundo sorrindo e vivendo enquanto você sofre. É assim que as coisas são.

Até elas não serem mais.

Há uma luz que não se apaga

Eu sei que o mercado está complicado, retraído e com poucas oportunidades reais, mas você pode achar seu jeito de sair dessa situação. Para isso, se dê cinco dias de medo, de aflição, de desespero, e se comprometa a achar uma solução a partir do sexto. Entender o seu medo é crucial para sair do buraco.

Use a criatividade, tente fazer coisas que você nunca fez antes, busque fortalecer contatos que você nem se lembrava que existiam. Entenda que nada vai acontecer por milagre, mas tudo pode acontecer por esforço. Veja a vida como ela é, e ela é tudo sobre apanhar e continuar lutando. É assim que a vitória é feita.

Eu? Eu tenho, desde março de 2017, dois fundos de tela no meu computador. Um tem esse discurso do Rocky Balboa, enquanto o outro traz uma frase do mestre Bruce Lee: “não reze por uma vida fácil, reze pela força de enfrentar uma vida difícil”.

Bruce Lee era outro que sabia bater, então senta que lá vem tapa na cara!

Esses dois recortes motivacionais me lembram, todos os dias, de que tem gente, sim, que vai ganhar tudo de bandeja, mas que eu não sou uma dessas pessoas. Eu preciso lutar. E, quanto mais eu luto, mais eu aprendo. Quanto mais eu aprendo, mais chances eu tenho de vencer.

Você também tem – é só se dar os créditos para isso e já ir treinando o seu cruzado de direita. Sempre que precisar, assista um filme do Stallone para reforçar o seu merecimento em enfrentar o mundo sujo e cruel e, eventualmente, ganhar dele. Um dia, quem sabe, ele vai se parecer com arco-íris e unicórnios… mas, se você tiver aprendido a lutar pelo que deseja, vai acabar achando a vida fácil muito, muito chata. 😉

(Aliás, se precisar da nossa ajuda para calibrar o seu cruzado de direita, conte com a gente! Nós, da Profissas, estamos aqui para te ajudar a colocar o jogo no nível hard – e ganhar.)

Comentários (18)
  1. Lucas disse:

    Laís, esse seu texto ficou demais!

  2. Lais Agostini disse:

    Que ótimo La! Parabéns pelo texto!

  3. werner lima disse:

    nada melhor que a experiencia propria para motivar um necessitado… obrigado !!

    1. Lais Menini disse:

      Oi, Werner! Eu que te agradeço. Obrigada pelo comentário e, precisando, estamos aí! 😉

      Um abraço!

  4. Joao disse:

    Passando exatamente por isso agora!😐

    1. Lais Menini disse:

      Segura aí que a maré vai ficar melhor, João!!

      Precisando é só gritar. 😉

  5. Tiago disse:

    Muito bom o texto é vida como ela é.estou nessa situação mas vai passar afinal o mundo é assim mesmo.

    1. Lais Menini disse:

      Isso aí, Tiago! Pensamento positivo sempre! <3

  6. Teresa disse:

    Passando por um momento assim, nivel hard! Eu e marido desempregados, depois de 15 anos em uma empresa, três filhos pequenos e morando de aluguel!! Nightmare…

    1. Lais Menini disse:

      Teresa, aproveita esse momento de aprendizado para trazer à tona todas as habilidades que vocês tem (e até nem sabe que tem!) e correr atrás do que você sempre quis fazer.

      Esse tipo de situação também serve pra nos acordar, às vezes estamos perdendo tempo naquilo que nem gostamos tanto assim, e temos a chance de viver o sonho, ainda que seja bem árduo no começo.

      Um abraço!

  7. Felipe Lima disse:

    Laís é incrível como personagens da ficção e da vida real tragam inspiração para um momento de conforto e reflexão.

    Estou em uma situação de desemprego. É interessante que essa fase te faz realmente fazer um balanço sobre os seus talentos, retomar planos para atingir uma carreira profissional, apostar em novas escolhas ou estratégias e redescobrir para o novo.

    O mundo assusta mesmo, mas se encarar com o olhar e atitude de tigre que fez Rocky alcançar á vitória seus medos logo serão superados.

    Parabéns pelo texto.

    1. Lais Menini disse:

      Obrigada, Felipe!

      A vibe é exatamente essa – e, pra usar um clichê verdadeiro, a arte imita a vida. Ou seja, se Rocky consegue, a gente também pode! <3

      Um abraço!

  8. Adriana disse:

    era tudo oq eu precisava ler hoje. 🙂

    1. Lais Menini disse:

      Obrigada, Adriana! Se precisar, grite. 😉

  9. Jorge disse:

    Oi lais. Belo texto. Estou tentando ainda refazer minha vida. Passei longo tempo num relacionamento que nao tinha futuro, ou seja, perdi muito tempo na vida. Ainda sofro hoje as consequencias disso e muitas vezes sem saber o que fazer. O texto é realmente excelente. Parabens !!!!!!!

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