Vida

Precisamos falar sobre suicídio: será que as universidades estão matando os sonhos?

É polêmico, mas não dá para deixar de discutir a questão: os casos de autoextermínio nas universidades (públicas e privadas) estão virando uma pauta constante nos noticiários.

O acúmulo das tarefas acadêmicas, a pressão do mercado de trabalho  e a “falta de acolhimento na universidade” são denominadores comuns entre os discursos dos amigos de universitários que desistiram da vida.

No Brasil, são 8 mil casos de suicídio por ano, uma média de 24 casos por dia, de acordo com Organização Mundial da Saúde (OMS). Somente em Belo Horizonte (MG), em um levantamento feito pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), foram 137 casos de suicídio em 2013. De acordo com a ONG Centro de Valorização da Vida (CVV), que é especializada no atendimento a pessoas com propensão ao suicídio, na faixa etária de 15 a 29 anos o suicídio é um fenômeno preocupante, sendo a segunda causa de mortes mais recorrentes entre os jovens.

Não dá para generalizar a ‘causa’ nem diagnosticar onde está (ou de quem é) o erro, porque as questões que envolvem essa decisão – bem como todas as outras na vida – são particulares ao sujeito. As escolhas dizem respeito a posições subjetivas que a pessoa adota ao longo da vida. A exemplo disso, nem todas as pessoas expostas às mesmas situações cometerão os mesmos atos.

Entretanto, é preciso olhar para os ‘sintomas sociais’ que, por vezes, parecem endêmicos, com intuito de compreender o cenário e propor soluções mínimas para que o sujeito encontre uma saída diferente da morte.

Para isso, o objetivo deste texto não é dizer de quem é a culpa, mas problematizar um contexto que já é recorrente em um ambiente considerado a “realização de um sonho” para a maioria dos jovens que lá estão. Por isso, a meu ver, a questão vai muito além da universidade. Tem a ver com a lógica de um discurso capitalista que envolve imediatismo, expectativas inatingíveis e uma felicidade impraticável.

Questionar é preciso – e é saudável

Para que mais mortes sejam evitadas, é sempre preciso questionar, seja a você mesmo ou a quem esteja passando por situações complexas, sobre tudo o que leva o sujeito até seu quadro atual de insatisfação. Os questionamentos começam antes mesmo da sua escolha profissional, até porque a escolha do que ser vem antes de qualquer profissão. O que se quer? Você/a pessoa sabe o que quer? O que espera do futuro?

O que espera de um curso que irá lhe profissionalizar para uma atividade que provavelmente irá exercer por uns bons anos? Você/a pessoa conhece o mercado da profissão escolhida? Quais são seus (ou dela) objetivos de vida?

Que discurso é este de que com 30 anos o sujeito deve ser um empresário bem sucedido e capaz de consumir tudo o que deseja?

Em um tempo em que faltam as palavras, sobram objetos. E o sujeito sobra, como um objeto. Portanto, a faculdade não destrói sonhos; ela pode apenas cale o desejo de um sujeito que, talvez, nem seja o de estar ali.

É fato que as causas apontadas pelos jovens amigos de suicidas devem ser ouvidas e acolhidas. As universidades precisam rever metodologias sufocantes que também servem a uma lógica que o mercado (e talvez até os pais) exigem. Mas isso não é só uma tarefa da academia. Há sujeitos sendo sufocados de outras maneiras, mesmo aqueles bem sucedidos, que não cessam por objetos que não satisfazem os seus desejos.

Os casos de universitários são notícia porque também correspondem a uma lógica do mercado de profissionais que se formam para nos atender, mas quantos jovens estão sendo calados pelo imediatismo da felicidade que nunca vai existir? Quantas vidas são apagadas junto com as palavras que não são ditas/ouvidas?

Acolher é preciso, dentro e fora das universidades.

Cinthia Demaria é Jornalista, Psicóloga, especialista em Imagens e Culturas Midiáticas e Clínica Psicanalítica na Atualidade. Também é pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital e está à frente do marketing do projeto V.I.D.A.S. (Veículo Inspirador de Amanhãs Solidários), de prevenção ao suicídio, idealizado em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.

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