Mindfulness

A nossa esquecida relação entre corpo e mente

Estava na aula de natação e ouvi a seguinte correção do professor: se você mexe muito a cabeça, você desalinha o corpo. Naquele momento eu estava tentando, ao olhar para a raia ao lado, ver se o ritmo que eu estava nadando estava bom (sou uma nadadora lenta, então me esforço bastante para não ficar aquém da turma). Mas, a frase do professor fez tanto sentido para além daquele treino.  

Já faz um tempo que eu estudo a nossa relação com o corpo através da minha própria experiência e da literatura. Na experiência prática de diversas modalidades esportivas e artísticas aprendi a desenvolver autoconfiança. A literatura chegou depois, para explicar em palavras aquilo que eu tinha vivenciado. Hoje eu percebo que a cabeça desalinha o corpo: quando vivemos no mundo apenas mental, a gente vive nas imagens que o cérebro processa, e não na experiência. É por meio do corpo que vivenciamos, é ele que nos faz sentir vivos. Viver no mental é como se a gente vivesse num universo do tamanho de uma quitinete sendo que quando estamos no corpo podemos habitar um palácio.

Mas, trata-se de um fenômeno cultural fomos ensinados a privilegiar o conhecimento racional e por vezes tratamos nossos corpos separados de nós. Como se nossa inteligência estivesse restrita ao nosso cérebro e presa a um corpo que precisamos entreter: fazer exercício, alimentar, colocar para dormir. Mas o que acontece se olharmos para essa mesma história e a re-escrevêssemos: se o conhecimento também viesse de outras partes que não do racional? E se começássemos a ver nossos corpos como instrumentos inteligentes? Se eles forem os órgãos de percepção, transmissão e expressão para toda a nossa experiência viva?

O novo paradigma se torna não “Penso logo existo”, mas sim, “Sinto com meu corpo, logo existo”.

Nesse presente momento que você está lendo esse texto, inúmeras coisas estão acontecendo no seu corpo. O nosso sistema imunológico é mais complexo que a internet toda. E qual a chance de controlá-lo com a mente racional? Nenhuma.

E quanto mais sintonizamos com o corpo, descobrimos que ele é uma fonte muito profunda de conhecimento. Por exemplo, às vezes ficamos perplexos pois sabemos de algo sem dizer como sabemos… chamamos isso de intuição e por vezes temos receio de dizer que sabemos por sentir no corpo. E cada vez que nos sintonizamos com o corpo, descobrimos que ele raramente se engana.

Além disso, o nosso corpo tem uma capacidade muito grande de se adaptar ao meio. É através dele que conseguimos mudar velhos hábitos, acelerar o aprendizado e desenvolver presença. Por exemplo, se iniciamos uma rotina esportiva de performance com uma alimentação adequada, nosso corpo rapidamente responde: ganhamos força, músculos, nossa energia muda. E quanto mais desenvolvemos uma relação de proximidade com o nosso corpo, mais somos capazes de aprender com ele.

Por exemplo, quando passamos por uma situação de medo, hormônios de stress entram em jogo e nossos músculos se tensionam. A reação é importante, para nos demonstrar que estamos a perigo, porém, com um certo conhecimento sobre o seu corpo, em uma situação de medo, você pode ir se acalmando e mantendo a situação sob controle também para os outros. É um jogo com a sua respiração, com o seu campo energético e com a sua confiança.

E quando passamos por uma situação de stress e desenvolvemos alguma doença como uma gastrite, por exemplo, e nos dizem que é psicossomática? O “soma” é precisamente nosso corpo.Uma doença psicossomática é quando o nosso psicológico afeta o nosso corpo e ficamos doentes. Mas, se conhecemos nosso corpo, podemos tentar mudar essa lógica: para que o corpo possa influenciar positivamente o psicológico. Como? Praticando yoga, mindfulness, uma caminhada ou outro esporte.

Um outro exemplo bem prático: quando eu faço esportes, reorganizo o corpo e com isso as minhas ideias ficam mais claras. É um estilo de meditação ativa. Por exemplo, quando estou nadando, a água funciona como um espaço para as minhas ideias fluírem. Como se o fato do corpo estar não sob a influência da gravidade, trouxesse outras perspectivas que trazem insights também para o meu racional. Além disso, a água traz para o corpo uma calma muito grande. A corrida já me traz outra perspectiva, uma coisa mais material, o contato com o chão traz um sentido de aterrissar as ideias, que também é importante. A combinação dos dois ativa um combinado de imaginação-criatividade com materialização-realização. Além disso, ajudam a descansar o cérebro: parece paradoxal mas o cansaço do corpo, dá um alívio para a mente e com isso uma sensação incrível de bem-estar.

Aqui me recordo da famosa expressão walk the talk (andar em sintonia com o discurso) e tenho certeza que está ligada a esse movimento com o corpo: é sobre corporificar a experiência e seguir o discurso.

Sou uma grande entusiasta deste tema: quanto mais eu estudo e vivencio mais ele me fascina. Aprender por meio e com o corpo é uma experiência completamente distinta dos meus tempos de faculdade – tanto na engenharia quanto no direito não se falava de corpo, aprendia-se com a mente e sentado. Mas, ao mesmo tempo é uma experiência tão mais orgânica e rica, que faz todo sentido. É um grande resgate da nossa natureza e do olhar integral para quem somos. Um autor que gosto muito chamado Stanley Keleman fala que, atualmente, “grande parte da sociedade se organiza de maneira que se coloca à parte da sua própria natureza. A natureza tornou-se uma fotografia, uma ideia, um símbolo, uma imagem no cérebro – e o mesmo aconteceu com o corpo. Vivemos na imagem do corpo e não no corpo.” Resgatar o senso e a importância de vivermos corporificados é como diria Manfred Max-Neef uma fascinante viagem de volta a nossa origem.

Agora deixo aqui o convite para você. E se você tem dúvida de como começar, deixo-os com três sugestões:

  1. Ouvindo o corpo: como quando tenho fome? Sei quando tenho sede? Consigo ler que mensagens meu corpo me envia?
  2. Honrando o corpo colocando-o em movimento: um pouco todos os dias te trará a sensação de bem viver
  3. Fazendo do momento da alimentação um momento sagrado: desde trazendo calma, escolhendo melhor os alimentos e usando desse momento para sentir os benefícios no corpo da alimentação.

O bem viver começa com a gente, através de atitudes simples mas que podem mudar o rumo da nossa história.

Até a próxima 😉

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